O guia completo das estampas mais famosas da moda

Xadrez, vichy e burberry não são sinônimos, risca de giz nem é xadrez e paisley nasceu na pérsia antiga. A origem de nove estampas clássicas, do clã escocês ao quartel militar, explica por que carregam significados tão diferentes até hoje.

RADAR DA SEMANA

8/17/20264 min read

As estampas que todo mundo usa e poucos sabem o nome


Xadrez, vichy, Burberry, risca de giz, pied de poule, paisley, argyle, camuflado. Muita gente troca esses nomes como se fossem sinônimos, e não são. Cada um carrega uma origem diferente, e entender essa diferença muda completamente a forma de olhar para uma peça de roupa.

Xadrez é o termo guarda-chuva não uma estampa específica. Qualquer tecido com linhas que se cruzam formando quadrados ou losangos entra nessa categoria, incluindo o tartan escocês, que remonta aos clãs celtas do século 16 e virou símbolo de identidade familiar na Escócia séculos antes de qualquer grife existir. Vichy, Burberry, argyle e pied de poule, que aparecem separadamente nas prateleiras, são, tecnicamente, tipos específicos de xadrez, não estampas alternativas a ele.

Poá não tem nenhuma relação com xadrez. É a estampa de bolinhas, do francês "pois", que significa ervilha. A origem exata é incerta. Uma hipótese liga o nome à polka, dança de origem polonesa que ganhou força entre imigrantes do leste europeu no século 19, cujos movimentos circulares teriam inspirado o padrão. Outra atribui a popularização a Walt Disney, que teria escolhido bolinhas para o figurino da Minnie Mouse justamente para fugir do xadrez e das listras, já saturados nos catálogos de moda da época. O primeiro registro documentado do termo "polka dot" em inglês é de 1854, numa revista literária de Yale. O auge da estampa aconteceu nos anos 1950, ligada à estética pin-up e a nomes como Marilyn Monroe.

Vichy às vezes chamado de gingham, é um xadrez específico: linhas de uma única cor cruzando um fundo branco, formando quadrados simples e bem definidos, geralmente pequenos. O nome vem da cidade francesa de Vichy, tradicional na produção desse tipo de tecido de algodão desde o século 18. A origem do padrão em si é provavelmente inglesa, uma adaptação do guingão, tecido importado do sudeste asiático já no século 17. A estampa ganhou status de ícone de moda em 1959, quando Brigitte Bardot se casou usando um vestido vichy rosa e branco.

Burberry check também chamado de Nova Check, é outro xadrez específico, e o único desta lista que nasceu como propriedade registrada de uma marca. Criado na década de 1920 como forro interno do trench coat, na combinação bege, preto, vermelho e branco, ficou praticamente invisível por décadas, escondido por baixo do casaco. Só nos anos 1960 e 1970 a Burberry passou a estampá-lo do lado de fora, o que transformou o padrão em símbolo imediato de status britânico. A estampa foi patenteada pela marca em 1924, o que significa que, diferente do xadrez genérico ou do vichy, ninguém mais pode produzir legalmente aquela combinação exata sem autorização.

Pied de poule ou pé de galinha em francês, é um xadrez de trama mais complexa, formado por faixas alternadas de fios claros e escuros que criam pequenas figuras irregulares, tradicionalmente em preto e branco. Suas raízes estão nos tecidos lanosos escocesas da região das Lowlands, por volta de 1880. Uma versão maior do mesmo desenho é chamada de pied de coq, pé de galo. A estampa ganhou status aristocrático quando o príncipe de Gales, futuro Edward VIII, apareceu com ela na Vogue em 1934, e foi consolidada por Coco Chanel, que a incorporou aos tailleurs de tweed nos anos 1920, e depois por Christian Dior, que a usou no frasco do perfume Miss Dior em 1947.

Argyle é o xadrez de losangos sobrepostos, com linhas diagonais cruzando cada diamante. Surgiu no oeste da Escócia por volta do século 18, associado ao clã Campbell, da região de Argyll, que deu nome ao padrão. Originalmente em verde e branco, ganhou notoriedade internacional nos anos 1920 pela marca escocesa Pringle, e se consolidou como clássico de suéteres e meias depois que o duque de Windsor encomendou uma peça inspirada nas próprias meias de golfe.

Paisley é a única estampa desta lista com origem fora da Europa. O motivo em forma de gota, também chamado de cashmere ou buta, nasceu na Pérsia antiga, associado à ideia de vida e eternidade, e se consolidou na Índia, na região da Caxemira, onde artesãos o teciam em xales de lã fina. Esses xales chegaram à Europa no início do século 19, virando item de luxo entre a aristocracia, incluída Josefina, esposa de Napoleão. O nome atual vem da cidade escocesa de Paisley, que passou a fabricar versões locais mais baratas do padrão importado. Décadas depois, a estampa foi ressignificada pelo movimento hippie dos anos 1960 e 1970, tornando-se símbolo de contracultura, um destino curioso para um motivo que nasceu associado à realeza persa.

Risca de giz ou pinstripe, são listras verticais finas e uniformemente espaçadas, sem nenhum cruzamento horizontal. A origem está na Inglaterra do século 19, ligada ao mundo bancário e financeiro de Londres, embora exista também uma versão que atribui o padrão a uniformes esportivos de remo da mesma época. O nome vem da semelhança das listras com marcas de giz de alfaiate sobre o tecido. Tornou-se sinônimo visual de autoridade no mundo corporativo, usado por figuras como Winston Churchill.

Camuflado é a estampa mais recente desta lista e a única de origem estritamente militar. Surgiu em quartéis durante a Primeira Guerra Mundial, pensada para ocultar quem a usava em meio à vegetação. Só nos anos 1980 e 1990 estilistas subverteram o propósito original, suavizando cores e formas para transformar o padrão em item de moda urbana, o oposto exato da função que o fez nascer.

O que essas nove histórias têm em comum não é a estética, é o padrão de origem: quase toda estampa hoje tratada como decisão de moda nasceu de um contexto prático, um clã escocês precisando de identificação visual, um tecido barato de piquenique, um forro de casaco de chuva inglês, um xale persa de luxo, um uniforme de banco, uma farda de guerra.

A estampa vira um símbolo décadas – às vezes séculos – depois de resolver um problema que não tinha nada a ver com estilo.

Ficou de fora desta lista, de propósito, o animal print. É uma estampa complexa principalmente porque o problema não é em sua origem, mas de execução. Existe uma diferença técnica real entre um animal print bem-feito e a versão barata que qualquer um reconhece de longe, e essa diferença merece um texto só para ela. Fica aqui, nosso combinado.