Documentários, filmes e séries de moda que ensinam sobre poder e estilo

De McQueen a The New Look, alguns títulos revelam o preço de reconstruir uma identidade sob pressão. A leitura menos esperada vem de Next In Fashion, reality que mostra em tempo real como uma escolha estética vira argumento defensável para além das passarelas.

FORA DA BOLHA

8/14/20262 min read

Documentários de moda que ensinam mais sobre poder do que sobre estilo

Três produções tratam de moda como estudo de caso de construção e queda de marcas. Além da estética de cada uma, aborda também sobre ego de fundador, sucessão e os bastidores do negócio.

"McQueen" (2018, dirigido por Ian Bonhôte e Peter Ettedgui) acompanha a trajetória de Alexander McQueen, da formação como alfaiate no Savile Row até o comando criativo de grandes casas europeias. É um retrato de como talento sem estrutura de sustentação emocional e empresarial pode se tornar insustentável, mesmo no auge do reconhecimento.

"Halston" (2019, dirigido por Frédéric Tcheng) reconstrói a ascensão e a queda do estilista americano que definiu o glamour de Nova York nos anos 1970. O ponto central é o momento em que ele perdeu o controle sobre o próprio nome ao vendê-lo, deixando de decidir o que "Halston" significava no mercado. É leitura obrigatória para quem constrói uma marca em torno do próprio nome.

"Very Ralph" (2019, HBO, dirigido por Susan Lacy) já apareceu por aqui. Vale assistir com atenção a parte que trata da origem no Bronx e da construção deliberada de uma estética que não existia antes dele. Além do legado construído e que é vivenciado até hoje até suas inspirações, como destaque à sua esposa. Meu preferido!

Até aqui, nada que já não tenha sido indicado mil vezes em qualquer lista de "documentários de moda para assistir". Prefiro fugir desse lugar comum e indicar dois títulos também que raramente entram nessas listas.

O primeiro é "The New Look" (Apple TV+, 2024), minissérie de dez episódios com Ben Mendelsohn como Christian Dior e Juliette Binoche como Coco Chanel. A história acompanha os dois estilistas, além de nomes como Pierre Balmain e Cristóbal Balenciaga, durante a ocupação nazista de Paris. Dior tenta libertar a irmã, presa por resistência, enquanto trabalha fazendo vestidos para esposas de oficiais alemães. Chanel se envolve com um espião nazista na tentativa de resgatar um sobrinho capturado. O nome da série vem da forma como a editora da Harper's Bazaar, Carmel Snow, descreveu a coleção de 1947 de Dior, o momento em que a moda francesa voltou a existir depois da guerra. O que essa história ensina não é só sobre estilo, mas o preço de reconstruir uma marca e uma identidade do zero, sob a pior pressão possível. Dior não criou um "novo visual" por acaso, criou porque o mundo precisava urgentemente de um motivo para acreditar na beleza de novo.

O segundo é "Next In Fashion", reality de competição da Netflix. Na primeira temporada (2020), apresentada por Tan France e Alexa Chung, 18 estilistas competem por um prêmio de 250 mil dólares, julgados pela estilista de celebridades Elizabeth Stewart e por convidados especiais em cada desafio. Na segunda (2023), com Tan France e Gigi Hadid no comando, o time de jurados passou por nomes como Donatella Versace, Isabel Marant, Olivier Rousteing e Candice Swanepoel. Maratonei as duas temporadas e o que fica não é a criatividade dos looks, isso qualquer reality de moda entrega. O que fica de ensinamento é ver, episódio após episódio, como cada participante interpreta um mesmo briefing de formas completamente diferentes e como os jurados justificam sua escolha com critério não com gosto pessoal.

Nenhuma dessas cinco produções é sobre roupa, apenas. Todas são sobre o que acontece quando alguém precisa sustentar uma decisão de estilo diante de quem pode aceitá-la ou derrubá-la, seja um regime que ocupa o país, seja um painel de jurados sob luz de estúdio e passarela.

Fonte: Next In Fashion – Netflix