A verdadeira história por trás da jaqueta Napoleão que virou tendência em 2026

A jaqueta Napoleão que a Zara e Renner colocaram nas prateleiras não nasceu com o imperador francês, vem dos casacos da cavalaria húngara do século 18. A origem real de uma peça que atravessou guerra, moda feminina e cultura pop antes de virar tendência.

RADAR DA SEMANA

9/7/20263 min read

A verdadeira história por trás da jaqueta Napoleão que virou tendência em 2026


Zara, Renner e outras marcas acessíveis já colocaram nas prateleiras deste ano uma peça de ombreira marcada, gola alta rígida e fileiras de botões dourados, vendida sob o nome de jaqueta Napoleão. O nome é forte, visual, imediato. Porém, possui uma origem bem mais antiga e mais interessante do que a imagem de um imperador francês sozinho.

A peça que hoje circula nas vitrines não é uma réplica literal de nenhum uniforme específico de Napoleão Bonaparte. Ela descende de uma família de casacos militares conhecida como dólmã, ou casaco de hussardo, usada originalmente pela cavalaria húngara a partir do século 18. Esses casacos tinham gola alta, corte justo ao tronco, e um sistema de cordões trançados chamado aiguillette, ou alamares, que corria em fileiras pelo peito, com função prática além da estética: dificultava o corte de sabre em combate corpo a corpo. Ao longo do século 18, praticamente todos os exércitos europeus adotaram alguma variação desse modelo para suas tropas de cavalaria, incluindo a França napoleônica, o que explica por que a estética ficou tão associada ao período sem pertencer exclusivamente a ele.

O que realmente vincula essa estética ao nome de Napoleão é a força visual da própria imagem do imperador. Retratos oficiais, símbolos de poder deliberadamente construídos, hierarquia comunicada por bordado e metal, tudo isso ajudou a consolidar, no imaginário coletivo, um estilo de comando que ficou conhecido pelo nome dele, mesmo sendo praticado por outras nações antes e depois de seu reinado. A moda contemporânea faz exatamente esse atalho quando batiza a peça de jaqueta Napoleão, usa um nome fácil de reconhecer para vender uma estética que, na origem, era coletiva e militar, não pessoal e exclusiva de um homem só.

A peça também atravessou fronteira de gênero cedo. No início do século 19, a pelisse, versão civil e feminina desse casaco militar, ganhou espaço na moda Regency e no período Império, adaptando-se a silhuetas femininas com cintura alta e tecidos mais delicados, mas mantendo ecos do original nos botões e fechos estruturados.

A peça perdeu o cavalo e a espada, mas manteve a postura, vestindo mulheres que buscavam presença firme mesmo dentro dos códigos mais restritos da moda da época.

O modelo nunca desapareceu de vez da cultura pop depois disso. Michael Jackson usou variações dessa estética como parte de sua identidade visual ao longo de décadas. A banda My Chemical Romance adotou uma versão mais sombria do mesmo desenho em determinada fase da carreira. E, num contraste quase cômico, as Paquitas, do programa da Xuxa nos anos 1990 no Brasil, também vestiram versões coloridas e lúdicas do mesmo corte militar. É a prova de que essa estrutura visual, gola alta, botão em fileira, ombro definido, funciona como código de autoridade em contextos completamente diferentes, do palco do pop ao horário infantil da televisão brasileira.

A versão de 2026 chega, porém, com uma inversão de intenção. Nas passarelas, incluindo a coleção de estreia de Jonathan Anderson na Dior, a peça aparece desconstruída, combinada a calças largas, alfaiataria relaxada e até transparências, recursos que suavizam a rigidez original.

Analisando como tendência, o retorno desse modelo pode estar associada a um desejo cultural mais amplo por segurança e autoafirmação em um momento de instabilidade política, uma leitura que faz sentido histórico: a peça nasceu, afinal, para comunicar exatamente isso, disciplina e controle, num contexto de guerra constante.

O que fica dessa história é que a jaqueta que hoje pode ser comprada por um preço acessível em diversas lojas, carrega sem que a etiqueta mencione mais de 250 anos de cavalaria europeia, adaptação de gênero, cultura pop e reinterpretação de passarela.

Napoleão empresta o nome, mas nem sequer parece ter sido o inventor da peça que hoje leva sua marca.

Algumas peças do desfile da Dior – Summer 2026, que abrindo aspas, usaria todas elas mesmo sendo do guarda-roupa masculino.

Fonte: Dior 2026 — Foto Getty Images